quarta-feira, março 09, 2005

Shut the matraca up!



Calou-os a todos. Há dias, tinha sido a imprensa inglesa. Calhou agora a vez a Rijkaard, Puyol, e a todos os que não resistem a alinhar em mind games com o inventor da armadilha. Os que ainda conseguiram balbuciar qualquer coisa, como Eto’o, ficaram a falar sozinhos.

E a imprensa espanhola ficou a investir contra moinhos de vento, agarrando-se à desculpa de uma má decisão do árbitro com a mesma veemência com que tinha criticado semelhantes invocações de mau pagador do “treinador do Numancia” no jogo da 1.ª mão.

Mourinho confessou ter retirado mais gozo desta vitória do que do triunfo em Gelsenkirchen. Quem viu um festejo e se lembra do outro não tem do que duvidar. Na verdade, a noite foi perfeita para o português. Jogou espicaçado, como ele gosta. Trazia atravessada a derrota de Camp Nou. Os jogos mentais tinham corrido como ele queria. Aos 7 minutos, pôs a eliminatória a seu favor; aos 16, pôs a «melhor equipa do mundo» de joelhos; aos 19, enquanto distraidamente espezinhava uns irreconhecíveis catalães, achou por bem apresentar-se: «Hola, jo soy el entrenador de Numancia, y usteds?»

Depois, em vez de dar a estocada final (não podia ser, era muito cedo), o magnânimo herói estende a mão ao seu adversário (Paulo Ferreira, é a tua deixa!), ajudando-o a levantar-se (num filme do Zorro, é a parte em que o mascarado devolve a espada ao vilão). O rival, insultado com a misericórdia, enche-se de brios e mostra a sua raça: grande golo de Ronaldinho. Agora era o Barça quem se mantinha na prova, o Chelsea rodava fora de pista. Era apenas uma reviravolta hollywoodesca, para conferir mais suspense e dramatismo à coisa (no mesmo filme do Zorro, é a parte em que o herói é alvo de um contragolpe do mau da fita e passa a lutar com a camisa ensanguentada e em inferioridade física, como se já não bastase a ausência da Drogba e Robben).

Perto do final acontece aquilo que quem comprou bilhete sabia desde o início que ia acontecer: o triunfo do protagonista. E com um toque de ironia: fere de morte o vilão com o mesmo ferro com que havia sido ferido no primeiro take da película: uma má decisão do árbitro. Só que com muito mais classe: este árbitro, ao contrário do da primeira volta, não é um norueguês abichanado que passa 5 minutos trancado no balneário a cumprimentar o treinador da equipa da casa. Este é o melhor árbitro do mundo, e qualquer má decisão sua não tem que ver com pressões, inabilidade para o cargo nem com esquemas de apostas: é apenas justiça divina redigida a direito por linhas tortas.
Happy Epic End

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