sábado, maio 14, 2005

O golo

Andou estranho toda a semana. Como se estivesse num estado de dormência, imune às tricas quotidianas, à pressão do seu ofício. Nesse dia acordou ainda mais desassossegado. Levantou-se da cama logo que os primeiros raios de luz atravessaram a portada de madeira branca da enorme janela lateral do quarto e o atingiram em cheio no rosto. Não demorou muito a ganhar consciência que o dia tinha finalmente chegado. Sem perder muito tempo a ajeitar o pijama de algodão enrugado pela longa noite de repouso, procurou os chinelos debaixo da cama com a ponta dos pés e com eles caminhou meia dúzia de passos até à porta do quarto. Aí alcançou o pesado robe encarnado, debruado a letras douradas, que o acompanhou nos últimos meses para todo o lado e vestiu-o, primeiro com a manga esquerda, no que sempre lhe pareceu um ritual afortunado, e lembrou-se do dia em que lho ofereceram.

- «Miguel, aposto que não tens um destes com o símbolo do clube», disse-lhe um dos jogadores com quem melhor se relacionava.

De facto não tinha. Não porque não quisesse, mas porque nunca se tinha preocupado com isso.

O caminho até à cozinha foi rápido. O som do moinho de café a triturar os grãos a alta velocidade interrompeu o silêncio matinal do apartamento. Seguiu-se o despertar da pequena televisão em cima da bancada de mármore branca, fazendo ecoar pelas quatro paredes as primeiras notícias do dia.

- «Bom dia, são oito da manhã, o trânsito já começa a ficar complicado nas entradas em Lisboa através do IC 19 e da Calçada de Carriche...»

Enquanto derretia uma porção de manteiga enorme numa torrada acabada de tostar, os seus sentidos ficaram subitamente presos ao pequeno ecrã.

- «65 mil pessoas é o que se espera logo à noite no grande clássico do campeonato português. Em jogo está a liderança da Superliga e quem sair vencedor hoje sentencia a discussão do título. Por isso este é um jogo que ninguém quer perder. Ontem os técnicos falaram da pressão norm...»

«Só se fala no jogo», pensou para si, enquanto inalava forte um par de vezes para acalmar a pulsação.
«Não posso falhar hoje, eles dependem de mim. Temos de ser campeões hoje», murmurou.

Rumou à sala, pegou numa mochila preta, colocou-a ao ombro, e saiu de casa. No caminho para o estádio ligou o rádio do carro e as conversas eram as mesmas. As tácticas dos treinadores eram esmiuçadas por ouvintes anónimos, os nomes de quem deveria jogar eram lançados consoante as preferências.
O seu nome não tinha sido anunciado. Ninguém o tinha posto a jogar à direita, nem à esquerda. Mas isso não lhe retirava a alegria e só lhe aumentava a concentração para o grande jogo.

Ao longe já podia ver o estádio. Imponente, gigante nas dimensões. Segundos depois estava parado em frente ao enorme portão de ferro da entrada, impecavelmente pintado em tons escuros. Não demorou nada a ser reconhecido pelo segurança, que com o polegar deu sinal para seguir em frente. Mas foi o tempo suficiente para olhar à volta e notar a presença de meia dúzia de adeptos já a queimar tempo para assistirem à partida. De cachecol ao pescoço e bandeira larga na mão.

«Hoje o país pára», pensou, no mesmo momento em que soltava a embraiagem para fazer os derradeiros metros rumo à garagem.

A sensação era de que estava de novo em casa. Afinal, era ali que tinha passado muito do seu tempo nos seus últimos anos. Conhecia bem os cantos e os corredores. Sabia qual o caminho mais rápido para chegar ao balneário. Como evitar paragens desnecessárias para cumprimentos de ocasião a desconhecidos que por razões diversas tinham acesso àquele local, para si sempre sagrado.
Entrou no balneário, enorme, forrado com azulejos brancos que quase davam para reflectir o seu rosto. Estava assustadoramente vazio. Desprovido de alma e cor.
Tinha sido o primeiro a chegar mas não se incomodava com isso. Sentou-se no banco de madeira que percorria toda a extensão dos cacifos e pensou na «enorme emoção» de ali estar, de ir fazer parte daquela história. Pelo menos da história daquele dia.

«Já só faltam três horas, o melhor é começar a preparar-me», planeou consigo mesmo, enquanto percebia o aumentar de frenesim dentro e fora do estádio.
Encaminhou-se de novo para o balneário. Os jogadores começavam a chegar a conta-gotas, uns com perfil de ministro, outros mais casuais, de chinelo no dedo, calção curto e i-pod nos ouvidos. As saudações não escondiam a confiança do momento.

Lá do fundo do balneário uma voz disparou alto: «Então Miguel? onde estão os nossos equipamentos?»

- «Já está tudo pronto meninos. Tudo preparado como vocês pediram. O vosso roupeiro nunca falha. Agora satisfaçam a vontade a um velhote e marquem um golo por mim. Hoje é o nosso dia.»

1 Comentários:

Anonymous arrogo diz...

ugh! parecia o eugénio queirós no seu pior!

8:22 da manhã  

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